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Notícias Equestres


Um Monumento Equestre do Escultor José Rodrigues
01/04/2007
Encontra-se nos Arcos de Valdevez o único monumento equestre erigido em espaço público no Distrito de Viana do Castelo, uma obra, a meu ver, das mais interessantes do escultor José Rodrigues, natural de Luanda (1936) representativa do estilo escultórico modernista e que foi erigido no ano de 1999.

O monumento, denominado “Escultura renecontro de Arcos de Valdevez”, representa o imaginário baseado na lenda local que se resume a um “recontro” medieval de dois cavaleiros, um de Leão e outro um Cruzado, este situado a ocidente do primeiro.

A obra escultórica foi fundida em bronze e localiza-se na marginal da Vila, como que a sugerir que o cavaleiro Leão teria percorrido as veredas do Lindoso para chegar às margens do Vez para uma justa cujo sentido ficou ao sabor da imaginação dos locais.

O lendário reencontro de Valdevez é um dos episódios que a tradição popular terá empolado na fé da exaltação das origens de Portugal como nação independente, mas que ilustres historiadores e entusiastas biógrafos hodiernos seguem.

A “justa” distingue-se do “torneio” por se um jogo militar com armas embotadas e de puro divertimento, hipótese mais coerente para o cenário festivo de uma concórdia em que se negociou um tratado de paz. Confira-se a nota (1) a página 330 do Livro II da História de Portugal de Alexandre Herculano.

Já Joaquim Veríssimo Serrão, na História de Portugal aborda a página 86 a questão do local onde teria ocorrido o referido recontro.
Porém a entusiástica biografia de D. Afonso Henriques da autoria de Diogo Freitas do Amaral a folhas 92 refere “Os dois exércitos acabaram por se encontrar junto dos Arcos de Valdevez…”

Uma vez que o tema se baseia numa lenda o desenvolvimento da obra escultórica deixou toda a liberdade criativa ao Autor, mas não escapa aos aspectos polémicos da mesma.

As representações de cavalos em escultura raramente cativam o interesse dos escultores dada a reconhecida dificuldade de modelar um cavalo.
Os elementos mais significativos são a cabeça e os membros, estes expressando o movimento do cavalo. O escultor usou o expediente minimalista de mutilar as representações dos cavalos a que cortou os membros quase ao nível da articulação dos cotovelos dos dianteiros e da articulação dos joelhos posteriores.

Seja por mero expediente para fugir a uma dificuldade ou como provocação premeditada, seja por influência da estatueta do cavalo de Mérida, certo é que tal facto é motivo de polémica e resultou numa visão desfavorável das esculturas dos cavalos em causa, no ponto de vista equestre.

Tendo o monumento sido erigido numa plataforma a um nível superior ao do observador, tal mutilação dos membros sobressai em relação ao conjunto escultório e desvaloriza-o, principalmente no pormenor em que o mesmo mais se destaca do conjunto. A cabeça dos cavalos são o único elemento em que o momento dramático é vivamente representado, através da posição das orelhas, que revelam forte concentração dos cavalos e o chanfro em que o cavalo fica á frente da mão do cavaleiro, o que comunica a ideia de movimento. Dos cavaleiros nada transparece.

No confronto de dois cavaleiros medievais após a parada o único movimento possível seria o galope, expressão que se perde com a mutilação dos membros em que no segundo tempo de galope em que o cavalo se apoia no solo três membros facilitava uma base trípode de apoio equilibrada.

O segundo aspecto polémico da obra escultórica reside na sua localização, a meu ver infeliz, mas esta deve ter sido da responsabilidade da Autarquia que encomendou o monumento.

A localização do monumento em plano superior ao do observador, além de fazer sobressair a mutilação dos membros, perde a perspectiva mais favorável para se apreciar a beleza de um cavalo, ainda que seja uma representação escultórica: - a observação de um plano superior permite ver o alto da garupa e a curvatura do pescoço do cavalo.
Além disso foi colocado na zona da marginal mais ocupada com quinquilharia urbanística que cria muito ruído visual e destoa face à beleza do trabalho escultórico em causa.

Situando-se é certo nas margens do Vez, deveria ter sido escolhido um espaço mais a jusante, próximo da nova ponte em que o monumento seria avistado desta e situado a um nível inferior ao do observador, mas não tinha pernas para isso.

Não obstante, o monumento que constitui uma das raras esculturas equestres portuguesas, com a particularidade de ser mais representativa do estilo minimalista da Escola Superior de Belas Artes do Porto onde o escultor José Rodrigues se formou e exerceu como docente merece uma visita como ex-libris dos Arcos de Valdevez, apesar de non captandum vulgus.

Autor
Francisco Sá Lopes


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